Não é novidade o fato da epidemia de gripe H1N1 matar mais adultos jovens e grávidas (gestantes) que idosos.

A - Adultos jovens X Idosos
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         Recentemente muito tem se discutido sobre um "estranho" surgimento desproporcional de casos graves (e mortes) em adultos jovens em comparação com idosos (>65 anos) na atual epidemia, diferente do observado na gripe sazonal, que costuma ser bem mais grave em idosos que em jovens.
         Na realidade, essa diferença para a gripe sazonal existe sim, mas não é nenhuma novidade nem é uma singularidade desta pandemia. Desde 1998 já se percebeu (e vem se estudando) o fato de que em todas as pandemias de gripe do século XX ocorreu uma mudança no padrão de mortalidade por faixa etária, com maior acometimento proporcional de adultos jovens 1.  Este fato está apenas se repetindo nessa pandemia.
         No caso da gripe sazonal, a taxa de mortalidade chega a ser 8 vezes mais alta entre maiores de 65 anos do que na população em geral (98,3 e 15 por 100.000 pessoas, respectivamente) 2. Acredita-se inclusive que a mortalidade por gripe vem aumentando nos Estados Unidos devido ao envelhecimento da população.
         Já nas pandemias de gripe, como as que ocorreram em 1918, 1956 e 1968, essa taxa de mortalidade se inverte e passa a ser até duas vezes maior em jovens do que em idosos. O mesmo tem se observado nessa pandemia 3 .
         No caso da pandemia atual, a causa para essa diferença está em uma provável imunidade parcial de pessoas que tiveram contato com cepas do vírus H1N1 circulantes antes de 1957, ou seja, pessoas com mais de 52 anos de idade. De 1957 a 1973 o vírus não circulou entre humanos, e quando voltou a circular foi de forma limitada, com sorotipos novos. A defesa humoral criada contra as cepas do final da década de 50 possivelmente conferem algum grau de imunidade, que não foi adquirida pelos que nasceram depois dessa época. Evidências sobre antigenicidade de pandemias passadas dão suporte a essa teoria.
         A teoria de que a resposta inflamatória sistêmica do jovem seria mais exacerbada que a do idoso é advogada pelo presidente da Sociedade Argentina de Infectologia, Dr. Paul Bomhevi, mas está fracamente fundamentada e é pouco citada na literatura sobre o tema. O CDC tem sido bastante reticente em comentar essa possibilidade, principalmente por não ter sido possível evidenciar até o momento uma diferença entre a resposta inflamatória sistêmica gerada pela gripe sazonal e pela gripe da atual pandemia.
         Mesmo assim, na atual pandemia de gripe os indivíduos com mais de 65 anos ainda são considerados um grupo de risco para complicações por gripe. Isso porque apesar da mortalidade ser maior em jovens (pelo maior número de casos nessa faixa etária), a letalidade continua mais alta em idosos (número de óbitos por gripe dividido pelo número total de casos de gripe nessa faixa etária).
         Enquanto no Brasil o Ministério da Saúde considera o grupo dos idosos como pacientes acima de 60 anos, a OMS o define como pacientes acima de 65 anos.
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B - Gestantes
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         Também não é novidade o fato de gestantes apresentarem mais quadros graves e mortes por gripe que o restante da população. Isso sempre ocorreu, tanto em epidemias de gripe quanto na gripe comum ou sazonal. 4 A gestante tem um risco 5 vezes maior de apresentar uma complicação da gripe ou evoluir para óbito do que a população em geral (sendo que o risco aumenta a medida em que se aproxima o final da gestação). 5 Na epidemia de 1957, cerca de 30% dos casos graves de gripe e das mortes em mulheres ocorriam em gestantes. Segundo os dados do Ministério da Saúde ao final de agosto de 2009, essa mesma proporção está sendo encontrada no Brasil na atual epidemia, 6 estando portanto dentro do esperado.
         A maior gravidade da gripe na gestante é justificada pelas alterações fisiológicas respiratórias e cardiocirculatórias que se observam na gravidez (em especial a restrição respiratória pelo aumento do volume e da pressão intra-abdominal). Além disso, um prejuízo da imunidade celular também contribui para a maior susceptibilidade a complicações.5
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1. Simonsen I et al. Pandemic versus epidemic Influenza mortality: a pattern of changing age distribution. (ABSTRACT) J Infect Dis 1998;178(1) 53-60.
4. Influenza-related Death Rates for Pregnant Women. Emerging Infectious Diseases Vol. 12, No. 11. November 2006.
5. Pandemic Influenza and Pregnant Women. Emerging Infectious Diseases Vol. 14, No. 1, January 2008.
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