A atual epidemia de Gripe H1N1 (Gripe Suína)

A - Essa epidemia de gripe pegou todo mundo de surpresa ? Não era possível prever sua ocorrência ?

         Não, a atual pandemia não foi nenhuma surpresa. E sim, sua ocorrência já era prevista.
         Na verdade os pesquisadores já perceberam há muito tempo que as pandemias de gripe obedecem a um padrão cíclico, de aproximadamente 4 a 5 décadas entre elas. Esse é o tempo necessário para que as mutações no vírus Influenza gerem um subtipo novo, contra o qual não tenhamos ainda imunidade, e por isso ele se espalhe rapidamente. Uma epidemia de gripe como a que vivemos atualmente já era esperada desde a década de 90. 1
         A discussão sempre revolveu em torno de qual subtipo (ou subtipos) seria o responsável pela mutação que geraria um sorotipo ou novo subtipo causador da epidemia. As apostas estavam recaindo sobre o subtipo H1N5, causador da gripe aviária. Se este subtipo sofrer uma mutação que o torne capaz de se transmitir de homem para homem (ao invés apenas da transmissão da ave contaminada para o homem, como ocorre hoje), então estaremos diante de uma epidemia terrível e altamente letal, pois trata-se de um vírus que causa uma doença realmente grave quando infecta o homem.
         Alguns pesquisadores acham que estamos muito perto disso ocorrer.2  Outros, menos alarmistas (e que são maioria), argumentam que essa não é uma mutação simples e pode inclusive nunca vir a ocorrer. 1

B - Se já se sabia que haveria uma epidemia, por que nada foi feito para evitá-la ?

         Porque ainda não somos capazes de evitar as mutações do vírus Influenza (nem estamos remotamente próximos disso). Simplesmente não há como impedirmos que surja um novo vírus nem que tenhamos pouca ou nenhuma imunidade contra ele. Muito se discute, no entanto, sobre a gravidade de uma nova epidemia quando comparada às anteriores.
         Em relação ao número de pessoas afetadas, é difícil prever o resultado. Se por um lado o maior acesso da população aos serviços de saúde, a evolução dos meios de comunicação e das ferramentas de vigilância epidemiológica permitem detectar com maior precocidade o surgimento de um surto de uma determinada doença, ajudando a contê-lo, por outro a maior mobilidade das pessoas no mundo globalizado ajuda a espalhá-lo. Além disso, uma vez estabelecida a pandemia, é muito difícil contabilizar o número total de casos, principalmente quando a maioria é de casos não complicados, o que dificulta o dimensionamento do número total de pessoas afetadas.
         Já em relação à gravidade da gripe nas próximas epidemias, também há algumas divergências na literatura. Alguns autores já fizeram projeções catastróficas para uma próxima pandemia de gripe, com previsão de morte de mais de 100 milhões de pessoas, principalmente nos países em desenvolvimento.2 A maior parte dos autores, contudo, é partidária da teoria de que nada indica que as mutações façam o vírus se tornar cada vez mais letal. Pelo contrário, o que se observou nas epidemias de gripe do século passado foi uma diminuição do número de mortes ao longo do tempo. 3 O vírus H1N1, que causou 40 milhões de mortes na epidemia de gripe de 1918, provavelmente não era mais agressivo (capaz de gerar casos graves ou óbito) do que o vírus H1N1 que está causando a pandemia atual. No entanto, até o começo de setembro de 2009 a OMS contabilizava pouco menos de 3000 casos de morte pela nova gripe 4 (mesmo que o número de mortes seja várias vezes maior que isso devido ao sub-diagnóstico da gripe, principalmente nos países em desenvolvimento, trata-se de uma diferença expressiva).  Essa diferença se deve principalmente à melhoria geral das condições de vida da população, ao maior acesso aos serviços de saúde, ao advento dos antibióticos para tratamento das infecções bacterianas secundárias à gripe e aos avanços da medicina no suporte básico e avançado da vida. 3
         Isso não significa, contudo, que seja impossível o surgimento de um vírus da gripe com alta letalidade. Apenas que é improvável à luz dos conhecimentos atuais.1
         Há vários anos, e principalmente por conta da ameaça da gripe aviária, que surgiu em 2003, a Organização Mundial de Saúde vem fazendo, na medida do possível,  um ótimo trabalho de preparação para epidemias de gripe, criando diretrizes e protocolos de ação passo-a-passo para os governos implementarem antes, durante e depois das epidemias. 5  Durante a atual pandemia pôde-se notar claramente as consequências desse trabalho na coordenação mundial dos dados sobre a doença e nas recomendações claras sobre comportamento e contágio.
.
C - Se a Gripe H1N1 não é tão grave assim, porque toda hora vejo na mídia gente morrendo dessa gripe ?

         Essa é uma excelente pergunta. Não é que a gripe H1N1 não possa ser grave. Ela é aparentemente tão grave quanto a gripe comum ou sazonal. É que a gripe comum ou sazonal é mais grave do que o público leigo tinha conhecimento.
         Nos Estados Unidos morrem entre 30.000 e 50.000 pessoas por causa de gripe todos os anos. 6 E não estou falando da nova gripe H1N1 nem de epidemias. Estou falando da gripe comum. Todo ano morrem 50.000 americanos por complicações da gripe comum. O número de casos graves de gripe que necessitam de internação nos Estados Unidos é de cerca de 226.000 por ano.
         No Brasil, não há dados oficiais confiáveis, mas o número de mortes por gripe comum deve girar em torno de 25.000 por ano. 
         Até o momento o Ministério da Saúde contabiliza 557 mortes pelo vírus H1N1 (em 28 de Agosto de 2009). 10  Mesmo que consideremos que haja uma grande sub-notificação de casos (pois nem sempre a morte é atribuída à gripe), ainda que esse número aumente em 50 vezes ainda estaria dentro de uma mortalidade anual média para gripe.
         A taxa de letalidade (proporção entre os casos que evoluem para óbito em relação ao total de casos da doença) da gripe comum gira entre 0,5 e 1%. Isso significa que de cada 200 pessoas que pegam gripe, uma  morre. Não há nenhum indício até o momento de que a taxa de letalidade da gripe H1N1 seja maior do que isso. Mas é claro que se um número muito maior de pessoas fica gripada (como está acontecendo nessa pandemia), naturalmente um número maior de pessoas virá a morrer de gripe.
D - Então é tudo um exagero, um circo criado pela mídia ?

         Não, não é bem assim. Há motivos para a atenção que a mídia tem dispensado à pandemia de gripe; e o principal deles é justamente tratar-se de uma pandemia. Um número muito maior de pessoas terá gripe esse ano em comparação aos anos anteriores (estima-se que entre 4 e 6% da população das regiões afetadas pela pandemia terão gripe). 7  E como a proporção entre o número de casos graves ou mortes em relação ao número total de casos não mudou, é provável que mais gente no mundo morra esse ano de gripe que nos demais anos (0,5% de "10 x" é um número maior que 0,5% de "x").
         A nova gripe tem a mesma gravidade da gripe comum ou sazonal, mas tem uma capacidade de se espalhar muito maior, ou seja, muito mais pessoas ficam doentes. Isso ocorre justamente pela ausência de imunidade contra o novo sorotipo.
         A taxa de transmissão (R) da gripe representa a quantidade de novos casos que surgem a partir de uma pessoa com gripe. Para que a transmissão seja sustentada e a epidemia progrida, R deve ser maior que 1, do contrário a doença se extingue. Para a gripe comum ou sazonal, a taxa de transmissão é de cerca de 1,3 (cada pessoa com gripe transmite a infecção para outras 1,3 pessoas, ou para cada 3 casos de gripe comum surgem 4 novos casos). Dados preliminares têm demonstrado que a nova gripe tem uma taxa de transmissão acima de 2,5, ou seja, mais que o dobro da gripe comum. 8
          O papel da mídia tem sido muito importante para a conscientização coletiva de que há uma epidemia de gripe, incentivando assim que as pessoas tomem medidas fundamentais em evitar o contágio (como afastar do trabalho aqueles que estiverem com quadro gripal, lavar as mãos constantemente, cobrir boca e nariz ao espirrar e tossir, evitar aglomerações em ambientes fechados, etc). Isso certamente contribuiu para que a epidemia não afetasse ainda mais pessoas. 9
         Mas se por um lado o espaço que a mídia reserva para a epidemia parece ser adequado, por outro o enfoque, o conteúdo das matérias veiculadas deixa muito a desejar. A velha discussão sobre o desserviço que a imprensa presta à população ao privilegiar o sensacionalismo em detrimento da informação precisa e completa também é válido para esse tema. A maioria das notícias destaca as mortes pela nova gripe, sem contextualizar, por exemplo, comparando com o número de mortes anuais por gripe comum ou sazonal. Isso gera uma falsa impressão na população de que estamos diante de uma doença de extrema gravidade. Por conta desse conceito, os pacientes muitas vezes chegam às lágrimas no consultório quando lhes é informado que estão com gripe e que provavelmente trata-se da nova gripe.
.
1. The Next Influenza Pandemic. Can It Be Predicted? JAMA, May 9, 2007—Vol 297, No. 18
3. Trends in Recorded Influenza Mortality: United States, 1900-2004. American Journal of Public Health. 2008;98(5)939-45.
7. Use of Influenza A (H1N1) 2009 Monovalent Vaccine. ACIP 2009. Morbidity and Mortality Weekly Report. August 28, 2009.
9. Putting influenza A H1N1 in its place. The Lancet Infectious Diseases. 3099(09)70134-3.

Nenhum comentário:

Postar um comentário